segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Presas Caídas

--- Querido, é hora de acordar. Se não vai se atrasar pra escola --- a voz da mãe, sempre amável e doce, tirava a mente de Gary dos sonhos e, com um cafuné, trazia de volta para a cama.

E não só Gary, mas grande parte das crianças da cidade também deveria estar acordando àquele horário. Hora em que o primeiro raio de sol invadia as muralhas de Kallistria e travava uma luta que se estenderia por algumas horas contra a fina camada de neblina sobre as ruas de pedras.

Período também que ocorria a troca de turno da guarda pela cidade. Jared fazia parte das Presas da Noite --- como eram chamados os que passavam a noite em claro vigiando a muralha --- e, sedento por sua cama e um prato quente de comida, cruzava Drack’uhla em direção a Gavony, dois dos dez bairros que compunham Kallistria.

Eram Drack’uhla, Sangir, Gavony, Martirya, Katedra, Firenzia, Balfanor, Nosfer, Venescia e Transylvännia.

Desde criança, Drack’uhla provocava calafrios em Jared. Os habitantes daquela província eram reclusos e pouco amistosos, sempre olhando torto para o jovem oficial. Todos com exceção de Linda. Linda era doce e pura, uma mácula branca naquele antro negro e recluso, uma rosa em um arbusto de Pétalas Negras. E, todo dia, próximo daquele horário, a garota despedia-se do filho.

--- Preste atenção na aula, Gary. Sente na frente e escute tudo o que a professora disser! --- os conselhos de toda a manhã. O garoto resmungou algo e saiu correndo em direção da escola.

--- Ei, Gary, não está esquecendo de algo ? --- a voz conhecida do soldado freiou as pernas do menino, que voltou e deu um beijo no rosto da mãe --- Assim está melhor!

--- Tchau mãe, falou Jared!

--- Té mais... --- o soldado e a mulher acenaram para o garoto e ficaram por um tempo a observá-lo partir. Foi Linda que quebrou o silêncio.

--- Bem, se não é um patrulheiro cheio de olheiras. Não tem durmido direto, homenzinho?

--- Hum... digamos que alguém tem ocupado meus pensamentos.

--- Bem, ai temos uma garota de sorte! --- ela sorri, como se não soubesse do que o soldado falava --- O deixarei descansar, Jared, hoje é o meu dia do recolhimento e tenho que me preparar.

--- Com certeza, minha senhora. Seguirei meu caminho, tenha um bom dia.

O caminho até Gavony passava por Firenzia, o bairro boêmio de Kallistria. Alguns bêbados ainda saiam das tavernas, enquanto homens cruzavam a província rumando para seus trabalhos. De uma delegacia próxima, dois soldados transportavam um brutamontes algemado, provavelmente, preso por alguma briga de bar ou por roubar alguém.

Jared examinou o homem, calculando qual seria sua punição. Em Kallistria, as penas, além de períodos de encarceramento, continham doações de sangue que iam de um décimo de litro à algumas dezenas, divididas para que o culpado não morresse no processo. Imaginava que o homem não doaria mais do que meio litro de sangue, se não estivesse bêbado. Sangue dopado, como chamavam o líquido rubro com grande quantidade de álcool, só servia para festas e coquetéis entre a nobreza da cidade. Para a alimentação, era preciso que estivesse puro.



Bateu os olhos no relógio da torre e apertou o passo, cortando algumas ruelas e chegando à Gavony em pouco tempo. A transição de um distrito para outro era mais do que notável. O cheiro de cevada, álcool e vômito era substituído pelo aroma das flores e o perfume de pães e tortas recém-assadas colocadas nas janelas a fim de esfriar, além de atrair os clientes matinais.

Jared apalpou os bolsos, em busca de alguma moeda, mas a figura que vinha em sua direção chamou sua atenção.




--- Patrulheiro! --- o vampiro acenou com a cabeça ao passer por Jared. O soldado sentiu o Selo lhe percorrer todo o corpo, vibrando e arrepiando-o. Ao mesmo tempo de dor e prazer, além da vontade repentina de seguir o Imortal.

A maldição do Selo era uma magia taumaturga poderosa conjurada em todos os soldados que eram iniciados na Presas da Noite. Obrigados a beber o sangue de algum dos Imortais, os patrulheiros ainda mantinham sua conciência, mas, à menor vontade do vampiro cujo sangue foi bebido podiam ser controlados como marionetes.

Jared só teve tempo de fazer uma pequena continência ao Imortal e permaneceu parado por alguns segundos recobrando os sentidos. Perguntava-se o que teria feito Cervantes ter que ir até Gavony. Responsável por toda a milícia da cidade, o vampiro só saia da sede da guarda quando algo realmente ruim acontecia. Algo relacionado aos próprios vampiros. Jared parou dois homens vinham da mesma direção que o imortal:

--- O que houve? --- um dos homens pareceu nervoso, e com razão. Em Kallistria, mortais não se envolviam em assuntos de imortais. Só houve resposta, pois a pergunta vinha de um patrulheiro.

--- Disseram que um investigador da milícia foi morto --- o homem disse baixinho.

--- Pelos deuses... já é o sexto. Quem quer que tenha feito isso está bem encrencado --- o segundo homem retirou as palavras da boca de Jared.

--- É verdade --- o primeiro concordou. ---- Ouvi dizer que um grupo de aventureiros está ajudando a milícia.

--- Ainda não sabem quem é o culpado ?

Os dois menearam a cabeça negativamente e se despediram, tomando uma ruela estreita a alguns metros. A curiosidade e a presença de seu Mestre haviam tirado todo o sono do guarda, que viu-se movendo em direção ao ocorrido, uma ruela escondida próxima ao principal mercado de Gavony.

A área estava cercada e Jared só pode observar à distância o espetáculo bizarro. As paredes das duas construções que cercavam a pequena rua estavam pintadas de um vermelho tão vivo quanto o líquido que corre pelo meu ou o seu braço. A cena causava arrepio até mesmo no já calejado patrulheiro e, junto com o sangue, pedaços de carne pendiam presos nas mais diversas direções. O que quer que tivesse causado aquilo, era muito poderoso.

As notícias vieram nos dias seguintes. O Conselho comunicou à população suas descobertas: Gheth, um dos vampiros mais poderosos de Eä, fugira da cidade, deixando em seus rastros sete mortes, mais de dez mulheres desaparecidas, uma cria semi-consciente e assuntos inacabados com os outros membros do Conselho.

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--- Fui claro, soldados ? --- Cervantes bradou ao fim do discurso --- Vocês tem permissão para matar quaisquer Imortais fora do perímetro da cidade. Tragam Gheth vivo ou morto!

Jared engolia seco, hipnotizado, como os outros sete patrulheiros ao seu lado, as palavras do Imortal rondavam em sua mente.

--- Vocês são as melhores Presas, os melhores soldados... vocês são kallistrians! O objeto que tem em mãos representa a transfiguração, a transformação. De hoje em diante, vocês perdem as suas identidades...

Cervantes tomou um cálice da mesa próxima e puxou a adaga de seu cinto. A lâmina passeou pelo seu pulso, comendo carne e bebendo sangue. O filete rubro jorrou para o recipiente prateado e, quando o Imortal achou que tinha o suficiente, lambeu o pulso e o corte cicatrizou-se. O cálice foi passada para cada um dos guerreiros que se deliciaram do néctar doce e pastoso.

--- De hoje em diante, vocês serão...

Os soldados vestiram o objeto que traziam em mãos. A placa de prata do formato do rosto possuía duas pequenas aberturas para os olhos, acima do traço horizontal vermelho que cruzava de uma ponta a outra e formava um macabro sorriso. As duas presas a mostra.

--- ... a Máscara!

domingo, 18 de setembro de 2011

Todos reunidos estão,
Sacam o Barão,
Torcem pela a verdade,
Por própria vaidade.

Um deverá morrer
O outro viver
Um deverá ganhar
O outro perder

A verdade se esconde
Entre sorrisos e a noite
O deus vê a todos
E só graceja poucos

Uma troca foi feita
Poderá ser desfeita?
O item pedido
será concedido?

Pedido?
Pensa o destemido
As Coras Rolam
E pouco demoram

O destino morre
E o próximo foge
A noite avança
Continua a matança

O norte geme
As praias gritam
“O Rei Morreu, Vida Longa Ao Rei!”
Algo trocado?
Você está enganado

O destino vem
A noite cai
A batalha não termina
E o sangue brilha



Ass: O Apostador

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Livro (Saga de Nihal parte 5)




--- Me matar ?! --- a surpresa tremeu-lhe a mão, deixando cair a caneca de bebida.



--- Sim, Omnitho’kae --- Pandryl recolheu o objeto do chão e murmurou algo que fez com que a bebida retornasse à caneca em um movimento rápido e fluido --- Acreditamos que foi ordem de seu irmão, Nihal.



--- Ainda tenho a carta que o lobo me trouxe --- a voz rouca de Raskaz ecoou no ambiente. Era a segunda em comando na hierarquia Kaërin, respondendo apenas para o Lorde Rubro.

Nihal tomou a carta, passando os olhos rápidos pelas letras. As palavras não revelavam nada mais do que os outros já lhe haviam contado e todos ficariam na dúvida realmente, não fossem as habilidades do “servo do tempo”.

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Todos os deuses possuiam seus clérigos, servos à seu serviço dotados de uma minúscula centelha divina que, aliada a fé, lhes permitam capacidades mágicas. Todos com exceção de Omnitheron.

A essência caótica do Deus do Tempo não permitia que este os possuísse. Era passado estável, concreto e imutável. Lembranças, aprendizados, vitórias e erros. Era presente em movimento, instantâneo e vivo. Ações ainda acontecendo. Era futuro duvidoso e modificável. Incerteza e esperança. Era paradoxo. O ontem, o hoje e o amanhã.

O estudo do Tempo só era possível através do conhecimento do Arcannum, o alfabeto dos “nomes verdadeiros”, que designava mais de cem palavras para as diversas facetas do Tempo. E, se o pré-requisito já era difícil e ancestral por si só, imagine só a própria ciência, cujos adeptos recebiam o título de “servos dos tempo”.

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O elfo fechou os olhos, apertando o pergaminho em ambas as mãos. Sentiu um formigamento percorrer todo o corpo, como um pequeno choque fraco a passear por seus músculos. Murmurou o Nome do Tempo. Sua mente deu voltas e sentiu o corpo esfriar. Primeiro achou que era a reação natural do corpo, fornecendo energia para a magia, mas depois o frio pareceu tomar conta do ambiente. Percebeu não estar mais na sala em Devras Arsak e sim em uma típica floresta Lomërin.



A lua e as estrelas sempre presentes no céu vigiavam o encontro das duas figuras. Como um espectro invisível, Nihal observava-os de longe:

--- Você tem certeza, meu Lorde?

--- Sim, Gallënrard --- reconheceu-os rapidamente. Seu irmão e Lorde, Varnilael e um de seus conselheiros. --- Ele nunca voltaria para Galenbar de mãos vazias. Deve estar em posse do livro e duvido muito que não o tenha lido. Agora vá, faça como ordenei.

--- Certo, meu Lorde.

O elfo se afastou, seguido de perto por um lobo branco, e Nihal fez com que o Tempo passasse mais rápidamente. Primeiro segundos, depois minutos e enfim horas transcorreram em um piscar de olhos até que o conselheiro parasse sua caminhada. A carta e um volumoso saco de moedas foram amarrados por volta do pescoço do mascote lupino e este seguiu mais alguns quilômetros em meio as árvores até que deparou-se com Raskaz. Sem grandes palavras, a elfa recolheu a mensagem e o amontoado de dinheiro. Ambos se viraram e seguiram seus caminhos.


A névoa que cobria a vegetação rasteira nublou a visão do servo do tempo e, como um golpe veloz, a sala de comando Kaërin tomou forma. Tonto e fraco, o elfo jogou-se em uma cadeira próxima.

--- E então, meu amigo ? --- Pandryl lhe entregou uma erva de gosto amargo e sem cor que Nihal mastigou. Era doto que a planta, quando digerida, restaurava a força e o vigor no corpo.

--- Varnilael... ele ordenou... o ataque. Quer me matar.



--- Algum motivo para isso, Omnitho’kae? --- dessa vez, fora Llyana quem indagara. A voz calma e doce até suavizava o perigo que Nihal corria.

Entretanto, em nada alterava a gravidade da pergunta. Respondê-la seria repassar conhecimentos que talvez devessem ser deixados onde estavam... esquecidos. Não respondê-la seria trair a confiança dos presentes (não que confiasse em Raskaz, mas não tinha muita escolha).

--- Todos esses anos, estive a procura de um tomo sobre uma lenda tão velha quanto nosso mundo. Passei muito tempo vasculhando as inúmeras e extensas bibliotecas de Eä’Singen até que, finalmente, o encontrei em posse de um bardo --- esta não foi a real velocidade em que falava tudo. Nihal pausou diversas vezes, tomando fôlego e organizando as idéias, o que seria deveras demorado se este narrador o respeitasse. --- Este bardo era protegido por um mecenas do Reino da Fronteira do Norte e, assim que roubei o livro, o nobre colocou a minha cabeça a preço. Por sorte, consegui fugir até o território de Elandil e fui salvo.

--- Mas o que tem esse livro, Nihal? --- o guerreiro de cabelos brancos nunca fora conhecido por sua paciência.

--- Falava sobre uma raça que habitou Eä a muito tempo atrás. Talvez antes mesmo de elfos, halflings, humanos ou anões... reza a lenda que possa ter sido antes dos Deuses. Viveram centenas de anos na região que hoje é Überfall, com o único objetivo de manter aprisionada uma entidade ou poder descomunal.

--- Impossível... todos sabemos que Eä foi criada pelos próprios Deuses. Não há como ter existido uma civilização antes deles --- era notável a exaltação na voz da sacerdotisa Faërin.

--- Eu pensei na mesma coisa, Llyana. Mas apenas digo o que li... não cabe a mim discutir a veracidade de duas lendas --- Nihal sempre fora cético em acreditar em contos e histórias. Fossem elas da criação do mundo ou sobre banalidades, preferia checar tudo por si só, caso contrário sempre lhe restaria a dúvida, por menor que fosse.

--- E que fim levaram? --- Raskaz não escondia sua curiosidade e temos que concordar que se você estivesse no lugar dela, provavelmente também não o teria feito.

--- O mesmo poder que eram encarregados de proteger corrompeu uma parte da raça e houve uma cisão, um grupo rumou norte e outro veio para o sul. O livro narrava os fatos dos que foram corrompidos. Estes seguiram até a costa e se aventuraram no Oceano. Isso é tudo o que sei...

--- E o que seu irmão pode querer com eles, Omnitho’kae?

--- Talvez esteja atrás do mesmo poder que os corrompeu... e, pelas descrições do tomo, se isso acontecer, temo o que pode acontecer não só com Galenbar, mas com Eä ---curvou-se, apoiando os braços nas coxas e a testa nas mãos. --- Eu era o único que sabia sobre o conteúdo do tomo e, portanto, o Lorde quis me eliminar para que ninguém tentasse o impedir.

--- O que faremos, Pan? --- Llyana aproximou-se do irmão, envolvendo seus braços no dele.

--- Vamos impedi-lo, irmã. Falamos com os outros lordes elfos e lutamos. Eu e Nihal tentaremos chegar até Varnilael antes que ele se encontre a outra raça.

--- Deixem essa tarefa comigo. Eu irei atrás de meu irmão. Vocês tem nações a cuidar, Pandryl. Orelhas contam com...

--- Eles tem, eu não. O Lorde Rubro pode muito bem governar os Kaërin sem mim. Irei com você, cabelos negros --- Raskaz o interrompeu com a oferta que mais parecia uma ordem. Nihal não estava em posição de negar ajuda, sabia que a jornada seria difícil.

--- Certo, partiremos o mais breve possível. Teremos que cruzar o território dos Ethëlarin, Varnilael está pelo menos dez dias a nossa frente.

Os outros concordaram com acenos de cabeça e os preparativos foram feitos.

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10 dias depois, na costa nordeste de Galenbar...



As praias do país élfico eram agradáveis. A brisa calma e melodiosa, alternando com o som do mar e os golpes das ondas nas rochas próximas. As conchas cobriam as areias amarelas daquela parte do país, formando uma verdadeira linha que dividia a terra do mar. Ao longe, o sol, inexistente no território Lomërin, dançava com as nuvens no baile do crepúsculo, tingindo os céus de um vermelho azulado e iluminando o pequeno barco que chegava à praia.

De dentro, uma figura alta e musculosa ergueu-se e se dirigiu ao homem e ao lobo sentados na areia. Possuia pelos escuros como a noite que cobriam todo o corpo e olhos felinos como o lupino a sua frente. Esboçou um sorriso, mostrando as presas, ao falar:

--- Seu chamado foi ouvido Lorde Élfico...

Velhos Amigos (Saga de Nihal parte 4)

Os primeiros raios da alvorada o acordaram bem quando o bando se aproximava da entrada de um acampamento. Já estavam no quinto dia de viagem, rumando, pelo o que a vivência nos ermos lhe dizia, noroeste.

Comera mal e podia contar em uma mão quantas horas havia dormido durante o trajeto. Concentrava suas forças a pensar em um jeito de escapar. Houvera algumas chances, entretanto em nenhuma delas seria capaz de levar Yontariel consigo. Restara esperar por outras oportunidades... que tardaram em surgir. A medida que se infurnavam mais no território Käerin, os captores pareciam reforçar a guarda dos prisioneiros, tornando perigosas as tentativas.

A grama e o orvalho das matas sob o luar assumiam tons mortos e acinzentados até que, impiedosas, rochas e poeira roubassem seu solo. As colinas Lomërinas deram lugar a montanhas impassíveis e florestas de Trakidarias, espécie de árvore cujas folhas ficam enterradas, enquanto as raízes se lançam acima da terra. Também conhecidas como florestas avessas, são o símbolo do território Kaërin e formam o brasão da raça.



Desciam por uma trilha íngrime em direção à depressão na qual o assentamento se estabelecera. Percebia que, pelo tamanho, não se tratava de um acampamento, mas sim de uma cidade aos moldes dos elfos ruivos. Uma muralha rústica de troncos vermelhos, fincados ao chão e presos por ripas e cordas, circundava grande parte da extensão do local, protegendo porcamente os habitantes dali. Nihal se perguntava como os habitantes conseguiriam se proteger de um exército de grande porte, quando as figuras enormes nas escarpas captaram sua atenção.

Estátuas de rocha pura espalhadas por toda encosta daquele acidente geográfico. Eram 5 no total, cada um medindo 10 homens de largura e outros tantos de altura. Guerreiros e bárbaros incrustados em fusão com o terreno íngrime, prostravam um dos joelhos ao chão em respeito e compromisso aos habitantes da cidade, enquanto seus olhos frios vigiavam os dias com impassibilidade digna apenas de estátuas. Os elmos cobriam-lhes as faces, impedindo de distingui-los entre si, não fossem os músculos e armas que, teimosos em se curvar ante a passagem do tempo, ainda mantinham-se lisos como pedra recém-polida. Nihal já havia ouvido falar daquele lugar, não apenas uma cidade, mas a maior dentre todas do território. Devras Arsak.

Casinhas rústicas de madeira vermelha se amontoavam umas sobre as outras, em uma arquitetura rápida e prática sem cuidado algum com a estética, reflexo do estilo de vida daqueles que nelas habitavam. Os Kaërins possuiam uma sociedade voltada à guerra; não à guerra de estratégia à qual outros reinos estavam acostumados, mas a guerra desenfreada e mal planejada. A guerra do sangue, do aço e do fogo. Os homens eram iniciados à vida do combate, bem como da forja, tão logo aprendiam a andar ou falar; já as mulheres ficavam encarregadas do artesanato, cuidar da casa e, principalmente, dar à luz a outros Kaërins. Aos escravos, restava o plantio, construção, trato dos Garalskas --- animais de grande porte, cuja carne é apetitosa e seu leite, róseo e adocicado.

Os prisioneiros foram levados para uma área próxima ao centro da cidade, destinada aos treinos diários de esportes e combate. Jovens corriam ao redor do campo aberto, com placas de metal presas ao peito e às pernas, para que adquirissem rapidez e resistência. Os que caiam durante a corrida, vítimas do cansaço, pagavam com sangue e algumas horas extras de corrida; os que aguentavam até o fim, apenas com sangue. No centro da área, outro grupo praticava esgrima e arquearia, enquanto um terceiro treinava as aberrações, humanóides de dois a três metros de altura e principais peões na destrambelhada máquina de guerra Kaërina.



Humanóides que passaram por um grotesco processo de simbiose com Carrascos de Ith, parasitas do Deus dos Monstros capazes de dotar seu portador com habilidades sobrehumanas. A transformação chegava a levar dias e, ao final, o corpo do hospedeiro aumentava desproporcionalmente de tamanho, tornando-se mais forte, todavia não perdendo a rapidez e a destreza. Como pagamento pela dádiva, suas mentes eram destroçadas, passando a obedecer apenas aos domadores. Tornavam-se impassíveis, obedientes e determinados... a mais perfeita máquina de destruição. Com o uso de chicotes e coleiras de espinhos, veteranos ensinavam jovens a controlá-los e domesticá-los no que parecia ser uma luta contra a criatura, até que a mesma fosse sobrepujada e viesse ao chão.



Os prisioneiros --- na grande maioria crianças e jovens, o que surpreendeu Nihal a primeira vista --- foram postos próximos a única construção da área, onde um grupo mal encarado se aproximou. O homem que estava a frente dirigiu a palavra a todos. Possuia cabelo curto e uma cicatriz que ia de um canto da boca até a orelha esquerda, cobrindo boa parte de sua face.

--- Shaelysti sai Drevas Arsak, malaer ! --- fez uma pequena pausa, abrindo um sorriso de repulsa que estendeu-se pela cicatriz.
(--- Bem-vindos a Drevas Arsak, escravos !)

Possuia uma voz rouca e suas palavras eram carregadas de ódio e maldade, capaz de congelar o mais quente dos corações.

--- Ai eis Rhaek, ail tasi os o... shelor ! Ai shor saer olia oli, mai jhorael tasaerelia --- certificou-se, sem necessidade, de que todos estavam prestando atenção. Fez sinal a um elfo e bradou --- TOLAEL EISI KYL THYLYRN COS, BYRN !
(--- Eu sou Rhaek, encarregado de vocês, párias. Ouçam com atenção, pois falarei apenas uma vez ----------------------------------------------------------------- JOVENS E CRIANÇAS SIGAM-NO, AGORA !)

Grande parte do grupo levantou-se, se aproximou do elfo, ao qual Rhaek havia feito sinal, e se afastou. A boca cicatrizada continuou a bradar mais algumas ordens e outros se retiraram, até que restaram apenas Nihal e Yontariel.

--- Byrn o, tia thol. Shi cali ei ker sholol sai mi o sai --- o som mal saia de sua garganta. Ele virou de costas, exibindo as dezenas de cicatrizes em meio aos trapos de couro que cobriam-lhe as costas. --- Tysti shor ti !
(Agora vocês, meus amigos. Nós temos visitantes ansiosos por conhecê-los. -------------------------------------------------------- Venham comigo !)

Os dois foram escoltados por Rhaek e mais dois guerreiros para longe da área de treinamento. Passaram por uma pequena aglomeração próxima a saída. Uma fila de crianças --- elfas, na maioria, além de humanas e anãs ---, um elfo encarregado do grupo e, em um cercado de madeira, cerca de dez a quinze Carrascos. Com 30 a 50 centímetros, se assemelhavam a grotescos cilindros dotados de asas. Possuiam carapaça dura, segmentada e acinzentada, além de garras por toda a extensão inferior do corpo. Na metade de seu comprimento, estendiam-se pequenas asas finas e, em uma das extremidades, duas presas negras que sugavam o sangue de seu hospedeiro. Os parasitas eram colocados nas costas dos jovens, prefurando pele e carne com suas garras, e fixavam-se na espinha dorsal de cada um. A junção era dolorosa e poucas eram as vezes em que o jovem não desmaiada devido à dor. Acordavam sem dor, sem reclamações, sem choro... sem mente.



Nihal e Yontariel seguiram pelas ruas de terra pisada por alguns minutos, até chegarem a uma construção imponente da mesma madeira que dotava a cidade do tom vermelho e sanguinário. Uma enorme porta dupla, com o brasão da raça entalhado --- a árvore de ponta-cabeça --- era vigiada por dois guerreiros que comprimentaram Rhaek em silêncio. Um deles deu dois toques rápidos com a espada na porta e ela abriu-se, revelando um pequeno cômodo sem mobília, vigiado por outros dois elfos e, ao fundo, um pequeno arco que dava acesso a outro ambiente.

Rhaek comprimentou os dois vigias, levando o punho ao peito, e passou pelo arco, seguido pelos dois Lomërins. Revelou-se uma sala muito maior, armas e estandartes da árvore avessa presos à parede, além de alguns mapas de Galenbar, detalhando as fronteiras dos territórios de cada raça élfica e a localização de outras cidades Kaërinas. Havia também algumas cadeiras espalhadas pelo local, bem como alguns barris de uma madeira escura como a noite e, ao centro, duas mesas retangulares da mesma cor. Em uma delas , havia um enorme javali fumegante que exalava no ambiente um aroma de carne recém assada. Junto disso, diversas canecas de bebidas estavam espalhadas pro cima do móvel, aumentando ainda mais o descontraído clima tabernal do local. Em oposição, a outra mesa trazia mapas e rabiscos de batalha. O único resquício de descontração jazia nos três copos pousados sobre a madeira, que de tempo em tempo eram entornados pelas figuras que conversavam. Ao notarem os visitantes, a conversa cessou e elas se aproximaram da entrada.



Uma delas havia lutado com Nihal durante o ataque a Hÿllinalkar, chamava-se Raskaz. Cabelos de um rubro quase negro, musculosa, feições duras e olhar frio. Trajava vestes de metal que mais cobriam suas virilhas e peitos do que realmente protegiam-na de algo. Garras e presas de monstros e animais selvagens compunham colares e amuletos que adornavam a pele de tom roxeado da mulher. Na cintura a estranha espada que, mesmo limpa, adquirira uma cor avermelhada pelo constante fluxo de sangue a qual era submetida.



Os outros dois eram conhecidos de Nihal. Llyana e Pandryl, irmãos e líderes dos Faërins, os elfos de cabelos brancos. Alto e de porte guerreiro, o elfo esboçou um sorriso ao vê-lo, escondendo o semblante de preocupação presente até a pouco. Trajava roupas leves vermelhas com desenhos de dragões, uma cimitarra presa à cintura com alguns lenços prateados, além dos costumeiros adornos de madeira negra nos lóbulos da orelha e no osso do nariz.



Já Llyana apresentava um aspecto mais rústico e bucólico, como era de se esperar de seu papel. As dezenas de alegorias tribais espalhadas pelo corpo procuravam, sem sucesso, esconder sua beleza delicada e sutil. Possuia traços suaves, lábios rosados contrastantes com a tez clara, os olhos tão verde quanto esmeraldas, decorados com uma pintura facial da mesma cor. O cabelo trançado estendia-se até a cintura, tocando no quadril que delineava pequenas ondas na sáia de tecido. Carregava um cajado de madeira e, no ombro direito, repousava um crânio reptiliano em honraria a seus ancestrais. Enquanto ela era a guia espiritual dos Faërins, Pandryl era o líder guerreiro da raça e ambos governavam em harmonia.

--- Tae si pandryl shi ail os shyr. --- Nihal e Yontariel disseram em unissono o comprimento que a etiqueta élfica mandava, meneando a cabeça em reverência.
(--- Que os dragões estejam em vosso sangue.)

--- Tae si tyl shar o maer, tia thol ! --- Pandryl se aproximou de Nihal apertando-o em um abraço forte. Fez o mesmo com Yontariel, e depois os dois beijaram a mão de Llyana. O líder guerreiro bradou com alegria. --- Jhyl sosti bai mi, Omnitho’kae!
(--- Que as Lua vigie seus passos, meu amigo! ---------------------------------- Quanto tempo, Omnitho’kae !)

Omnitho’kae, ou “servo do tempo” no idioma comum. Mais um dos múltiplos nomes a qual Nihal era chamado.

---Mesi air, Shori Jhys.
(--- Com certeza, Lorde Branco.)

--- Tysti o sai, aer thar. --- fez uma menção à mesa do javali fumegante --- Shi cali aistysal sol sai porer.
(--- Venham vocês dois. ------------------------ Comam depressa que temos assuntos importantes a discutir.)

Era um dos costumes dos Kaërins; nenhuma decisão importante deveria ser tomada de estômago vazio e, portanto, Nihal e Yontariel saciaram a fome de cinco dias de refeições fracas e insossas, para então se juntar aos outros três.

--- Tae Ai eir o, Shori Jhys, shar eisi sor aistysali sherolaer ?
(--- Se me permite perguntar, Lorde Branco, o que desejas conversar ?)

--- Si eiras sai Hÿllinalkar --- Raskaz sibilou antes mesmo que Pandryl pudesse responder --- Ai shar var sai eiras sar bolandri...
(--- Ao ataque a Hÿllinalkar --------------- Eu fui paga para atacar o vilarejo...)

--- O eisi mai col saelol ti sar... sal o --- as palavras de Nihal eram cheias de ódio e desprezo.
(--- Muito gentil de sua parte me contar isso... obrigado)

--- Tar pyrn, Omnitho’kae. Ei myjael shys talyr shi vaerolaer --- pela primeira vez ouvia-se a voz doce e calma de Llyana --- Shi cali vaeryl sai shaeloli sar air shar ei ailaesar osaes Lomërin.
(Acalme-se, Omnitho’kae. Não há como voltar atrás de uma palavra proferida ------------------- Nós temos razões para acreditar que o ataque foi ordenado por algum Lomërin.)

--- Shia pai o mae sar, Shori Cel ?
(--- Por que diz isso, Rainha Branca ?)

---Ei shori shyr, ber jhoji si Bol Shyr, shyl ti si vastael shor ei jhaeraes...
(--- Um lobo branco, como aqueles dos Lobos da Noite, trouxe-me o pagamento, junto com uma carta...)

--- Shar pyr air mar ?!
(--- O que ela dizia ?)

--- Sai cor o, shia eilia tael baelaerasor... --- foi Pandryl quem terminou, colocando uma mão no ombro de Nihal.
(--- Para que te matassem, por qualquer meio necessário...)

Sobre nomes e magias (Saga de Nihal parte 3)

Nomes...

Sabe, há pessoas que se perguntam a importância deles. Nomes dão, desculpe-me pela definição, nomes às coisas. Fornecem a essência do estado de existir, bem como são o princípio da caracterização de cada objeto, ser, sentimento... de tudo. Nomes também definem as muitas pessoas que você finge ser ou realmente é.

Sim... isso provavelmente ficou confuso mas, veja bem, minha vida nunca foi uma reta sem desvios, quedas e ascensões. Muito pelo contrário, está mais para uma daquelas figuras complexas que os matemáticos de Omnüs encontram nos fenômenos da natureza. E, como vamos falar da minha vida, não me importo se você ficou confuso ao ler este diário... leia de novo e de novo. Se não entender, vá ler a história dos heróis ou sobre a formação de cada reino da fronteira.

Já que ficou aqui... voltemos ao assunto: os nomes...

Nunca fui conhecido por apenas uma maneira ou alcunha. Fui chamado de diversas formas e, portanto, fui diferentes pessoas. Nasci na maldita terra onde a cor do cabelo parece ser mais importante do que o tamanho das orelhas, Galenbar... mas você já deve saber isso, se leu as outras entradas deste livro. Sou um elfo de cabelos negros, mas não fui criado como tal. Levei à morte aquela que me deu sua vida... irônico isso, não ? Bem, não importa.

Saí da terra dos elfos, ainda jovem... mal me lembro do dia. Mentira... provavelmente lembro, mas vou-lhes poupar de tal chatice. Saiba apenas que meu irmão de criação me enviou em uma comitiva de comerciantes para as terras que viriam a ser conhecidas como o Reino de Ferro e Carvão, Omnüs. A caravana foi e voltou, mas, a pedido de meu irmão, eu fiquei com um mentor...Farallen.

Naquela época, eu era Mithae. Nunca entendi porque ele me chamava assim, mas dizia significar que eu era sábio e de bom coração, mas tinha muito a aprender. Me ensinou a matemática, alquimia, biologia e mecânica... mas, principalmente, a dar nome às coisas. Se você nunca esteve em Omnüs, ou nunca presenciou os arcanos de lá, deve me achar um idiota. Afinal, dar nomes não é uma coisa, no mínimo, banal?

Naquela época, alguns estudiosos haviam descoberto um idioma ancestral, tão velho quanto os próprios elfos ou os deuses. Poucos o conheciam e ainda menor era o número dos que o dominavam. Farallen era um destes... De acordo com ele, tal língua representava o verdadeiro nome de cada coisa conhecida e desconhecida em Eä. Entenda bem que há diferença entre chamar um ser por algum nome inventado e chamá-la pelo seu nome real. Para facilitar, podemos dizer que o nome inventado seria apenas um pergaminho com uma inscrição. Você sabe o que aquilo significa, mas não consegue obter mais nenhuma informação do objeto. Já, o nome real trata-se da verdadeira estrutura química e física do objeto... e, portanto, conhecendo-o, você sabe tudo o necessário sobre o ser ao qual ele se refere. A medida que passa a conhecer mais e mais a coisa, você torna-se capaz de manipulá-la e de alterá-la da forma como desejar.

Você, sábio mago ou feiticeiro, pode talvez argumentar que isso quebraria os limites naturais da magia. Manipular a matéria livremente é possível até certo ponto... mas existe um limite natural que nunca é quebrado... nem mesmo pelo mais poderoso deus. Sabemos que não há como criar matéria a partir do vazio e, a famosa lei da troca equivalente ainda continua valendo neste caso.

O que o Arcannum, como denomino o tal idioma, faz é utilizar a energia vindoura do próprio arcanista como substrato para esta troca. Seja por esforço próprio ou capacidade inata, você fornece energia em troca de manipular a estrutura do ser, através de seu nome verdadeiro. Essa é a essência da magia que Farallen ensinou-me. E por isso que dou a devida importância aos nomes...

Quando atingi a maturidade, e já dominava o Arcannum, me despedi de meu mentor e segui de volta para Galenbar. Ficara sabendo que, neste meio tempo, meu irmão, Varnilael, havia se tornado Lorde e já era hora de lhe fazer uma visitinha.

Me despedi como Mithae e fui recebido como o andarilho errante ou, em nossa língua, Nihallinael.

Reunião de Família (Saga de Nihal parte 2)

Nihallinael seguiu pelas florestas do território Ellärin por alguns dias, sempre escoltado pelos cinco soldados de Elandil. Invisível, o grupo parecia se combinar à fauna local, restando nem ao menos um galho ou folha fora do lugar após sua passagem.



A medida que se aproximavam da fronteira, o sol se escondia sob o horizonte, até que o céu foi coberto pelo manto estrelado da noite. Por mais que o corpo do elfo sentisse estar próximo do meio-dia, no território dos Lómërin era sempre noite e a lua reinava soberana acima das florestas. Ao chegar próximo da borda da fronteira, os guardas se despediram:

--- Aen eizia cia byr maedasastyr, Nihallinael... Shai bondraes.
(É aqui que nos separamos, Nihallinael... Boa viagem)

--- Sal o... tae saesi eilar shi saer ail os var.
(Obrigado... que sempre haja árvores em vossos caminhos)

Os elfos acenaram e Nihal seguiu noite adentro, em direção à Hÿllinalkar, um vilarejo ribeirinho bastante próximo do limite entre as terras da noite, dos Kaërin e dos Ellärin. Recebera uma mensagem por um corvo alguns dias atrás... deveria encontrar o Lorde na aldeia o mais rápido possível. Não entendera os motivos, afinal Hÿllinalkar era um local feio, pequeno e sem o requinte que Varnilael tanto apreciava.

A poucas horas de marcha e já percebia as alterações no ambiente. Diferentemente das florestas dos Ellärins, a temperatura nos bosques da noite era menor e uma pequena camada de névoa era visível próxima ao solo. As árvores ali eram menores, com galhos mais finos e frágeis, abrigando um infinidade de espécies de animais noturnos, como corujas e morcegos. A fauna parecia mais traçoeira e perigosa, de modo que Nihallinael por vezes percebia estar sendo observado por pares de olhos ao longe.



Avistou, no terceiro dia, uma árvore de tronco largo a alguns metros de um riacho. Uma lua entalhada na madeira sinalizava a entrada para o vilarejo. Checou a segurança do objeto que carregava na mochila, se aproximou e assoviou duas vezes. Ouviu três silvos ao longe e respondeu com cinco mais longos. Um silêncio seguiu-se até que da copa da árvore desceram dois sentinelas, de um veado morto, outro se metamorfoseou e do riacho surgiram mais dois .

--- Aidaeloria osaer, malaes ! --- um dos sentinelas bradou com uma adaga em punhos.
(Identifique-se, estranho)

---Nihallinael, thys si Cyrantar thastolia, jhys’m shyraes. Ai eis caesi sai taer shor tia aeli…
(Nihallinael, da linhagem Cyrantar, irmão do Lorde. Venho encontrar com ele...)

--- Shaelysti sai os jhal, tia mos --- todos fazem uma pequena reverência ao visitante.
(Seja bem-vindo em nossas terras, meu Senhor)

Os homens acompanharam Nihal até o vilarejo, antes escondido pelo feitiço da floresta, que fazia vez de muralha e barreira contra invasores. Só era possível encontrá-lo com magia, ou caso os sentinelas assim permitissem. Foram recebidos por um elfo de mantos azulados que cobriam dos ombros até as canelas, deixando ver apenas um par de botas bem trabalhadas.

--- Shar pai shi cali caesi ?! Ais sar eil’s sor or eil kae are! --- o elfo disse animado.
(O que temos aqui ?! Se não é um elfo velho e viado!)

--- Eil ai mi eil aer sosaer os seil sai shi thelia !
(E eu vejo um elfo cansado de tentar ser engraçado !)

--- Nihal, jhyl sosti bai mi. Cyrn cali a shael ?
(Nihal, quanto tempo. Como andas ?)

--- Shaes... shaes.
(Bem… bem.)

Os dois elfos entrelaçam os punhos, se abraçando. Nihallinael pergunta:

--- Tyr o saji ti sai tia shyraes, Yontariel ?
(Pode me levar até meu irmão, Yontariel ?)

--- Vol byrn ! --- e, se voltando para os sentinelas, Yontariel diz --- Sal o, mos.
(É pra já! --------------------------------------------------------------------- Obrigado, senhores.)

Yontariel era um mago e leal amigo de Varnilael. Os dois haviam aprendido as artes arcanas com o mesmo mentor a algumas décadas e, desde então, tornaram-se inseparáveis. Quando o irmão de Nihal tornou-se Lorde, após a morte de seu pai, convocou Yontariel para fazer parte dos Lobos da Noite, a guarda pessoal do Lorde.

Com alguns sussuros e gestos arcanos, uma pequena cortina de ar os envolveu, arrastando folhas e poeira pelo local e, quando os dois se deram conta, já estavam em um local diferente. Um cômodo retangular, com duas portas, mas sem janelas e, no teto, uma abertura que permitia que os raios da lua iluminassem o ambiente. Algumas cadeiras, uma escrivaninha, algumas estantes e uma cama denunciavam o que parecia ser um quarto rústico. De onde materializou, não fosse sua visão noturna, seria difícil de perceber o homem sentado em uma cadeira e, ao seu lado, o enorme lobo branco que descansava a cabeça em sua perna. Ante a chegada dos dois, o homem se levantou, e cruzou punhos com Nihallinael, abraçando-o logo em seguida. Possuia feição semelhante às do irmão, talvez com um rosto mais delicado e traços mais finos... digno de um Lorde. Do lado esquerdo do rosto, usava uma máscara, cobrindo uma cicatriz proveniente de um ritual ao qual foi submetido quando criança.



--- Shyraes... jhyl sosti bai mi.
(Irmão... quanto tempo.)

--- Sael os, Varnilael...
(Dez anos, Varnilael...)

--- Ai eis kar o tasti shas... shi cali ei jhyr sai sar. Saer ti cyrn shar os bysi.
(Estou feliz que tenha retornado... temos muito a conversar. Conte-me como foram suas viagens.)

--- Ai cali thyl si shyl o cali vaezeraer...
(Eu encontrei o livro que me mandou procurar...)

--- Shaesi shar air ?
(Onde estava ?)

--- Thos, air shar ail Eä'Singer… sher air shar tylaer sai si Shys’Colys
(Primeiro, estava em Eä'Singer... mas foi movido para os Reinos da Fronteira)

--- Sar’m shia o cali taer Elandil ? --- o Lorde esboçou um risinho pelo canto da boca.
( Foi assim que encontrou com Elandil ?)

--- Or, si byrdaer cosaer eil eirarol sai cor ti eil vaeroli si shyl. Ci malaer ti.
(Sim, os nobres contrataram um assassino para me matar e recuperar o livro. Ele me salvou.)

Varnilael pareceu um tanto quanto desapontado, mas Nihal lhe entregou o livro de sua mala. Era um tomo de um palmo de grossura, uma capa de pele de animal bastante rústica e já judiada pelo tempo. Não trazia nenhuma inscrição que pudesse identificá-lo, mas só de tocar no material, era possivel perceber que tratavasse de um dos mais antigos livros já escritos... se não fosse o mais antigo.

--- Eisi o mesi sar shar’m shorael air sia, shyraes ?
(Tem certeza de que o que está escrito no livro é verdade, irmão ?)

--- Paerolonaraelia. Ais air’m sia sar Eä val shar ailardoraer...
(Absolutamente, Nihal. Se for verdade que o plano de Eä não era inabita...)

BOOOMMMM !!!, uma explosão ecoou por toda a floresta, seguido de gritos. Poucos segundos depois, das sombras que cobriam o cômodo, sete homens surgiram, juntamente com sete lobos, semelhantes ao lobo do Lorde.

--- Shar shar sar, Gallënrard ? --- Varnilael perguntou ao homem mais próximo que surgira.
(O que foi isso, Gallënrard ?)

--- Eil eiras, tia Jhys... Käerins.
(Um ataque, meu Lorde... Käerins)

--- Mor... cyrn por si cyrn shi shaesi caesi?
(Droga... como descobriram que estavamos aqui ?!)

--- Shi pyl’s cyrn… byrn air’s si sosti, mos… shi kyrae saki o orae caesi.
(Não sabemos... mas agora não é hora, senhor... temos que tirá-lo daqui.)

Dois dos guardas se aproximaram do Lorde, realizaram gestos arcanos e desenharam um círculo com tinta no chão. Antes do teleporte se completar, Varnilael gritou:

--- Yontariel... saji tasi os tia shyraes !
(Yontariel... cuide de meu irmão !)

O elfo acenou com a cabeça, sacando seu cajado --- Pai o mor cyrn cyrn sai thol, Nihal ?
(Ainda sabe lutar, Nihal ?)

--- O pyl’s aelael aistandroli, or tal... --- disse sacando uma cimitarra e um cajado e seguindo o mago para fora da construção.
(Você nem imagina, velhote...)

Nihal se assustou com a quantidade dos invasores. A vila estava em caos... era pequena e, por mais que estivesse localizada nas proximidades da fronteira com o território dos Käerins, não estava preparada para um ataque daquele tamanho. Ele e Yontariel trocaram golpes e magias contra um grupo que, assim que sairam da casa, o atacaram. Os inimigos eram habilidosos, mas o mago conjurou uma magia em Nihal, aumentando sua agilidade. O cajado e a cimitarra do elfo realizavam arcos rápidos, cortando e machucando os invasores que tombavam a cada ataque do guerreiro. Antes de sair em viagem, Nihallinael sempre fora um ótimo lutador... mas, agora que tinha viajado por Eä, aprendera a ser letal. Havia aperfeiçoado o combate da cimitarra e cajado, tornando-se um dos melhores em tal arte.

Estavam para terminar o confronto, quando Yontariel caiu vítima de um golpe na perna de uma elfa, que parecia ser a líder do grupo. Porte de guerreira, carregava uma espada estranha, banhada de sangue, cabelos ruivos e negros e uma pele de tom roxo avermelhado. Possuia uma voz rouca e firme que dava arrepios:



--- Ais Ai shaesi o, Ai shyr’s mae ail os shae... vaeror.
(Se eu fosse vocês, eu não ficaria no nosso caminho... lindinhos.)

Nihal paralizado com a presença da mulher, mal percebeu a pancada que recebeu na cabeça do elfo a suas costas... Caiu desmaiado aos pés da elfa.

O Lorde Élfico (Saga de Nihal parte 1)




Elandil observava as casas élficas construídas em simbiose com a enorme árvore. Estava sentado em um trono de madeira. Voltou-se ao invasor :

--- Então você vem às nossas florestas e tenta assassinar um de nossa raça... humano --- a última palavra saiu com um enorme desprezo pelo homem ajoelhado.

--- Mas ... mas...

--- Não pedi que falasse ! --- o elfo interrompe, levantando-se. Escondendo o corpo esbelto e musculoso, trajava uma impecável armadura verde e dourada com uma árvore trabalhada no peitoral. Uma coroa de madeira adornava os cabelos loiros e, em sua cintura, um sabre de lâmina marrom com alguns detalhes em um verde pulsante, denunciava o guerreiro que fazia papel de rei.



Se aproximou do homem, de mãos presas pela madeira retorcida, e levantou-o pela gola da camisa. Elandil o olhou nos olhos e disse:

--- O que fazia em meu território, inseto ?!

--- Eu... eu fui contratado... para... --- gaguejava de medo --- ... para capturar o elfo de cabelos escuros, senhor. Ele... ele roubou diversos nobres em meu país, senhor.



O que ele dizia era verdade. Nihallinael, o elfo de cabelos escuros, havia realizado uma série de roubos nos Reinos da Fronteira e os nobres contrataram um mercenário para dar cabo do ladrão.
Podia não ter o mesmo sangue que Elandil, mas ambos eram elfos. E, desde o início, com ou sem a guerra civil, elfos protegiam elfos.

--- E quem lhe deu a permissão de adentrar em meu território, pária, e ainda caçar um de minha raça?

--- Ninguém, senhor...

--- Ótimo... então sabes porque morrerá... --- Elandil saca seu sabre, fincando na barriga do mercenário. Do chão de madeira, raízes brotam enredando-se pelas pernas do mercenário. A cor da pele do homem passa do marrom para o cinza em poucos segundos. Momentos depois, o rei retirou a arma, deixando apenas a casca seca que antes fora o humano. Voltou-se para outro elfo:

--- Pai byr saji eir mysti kaelaelaer, Nihallinael. Os valaer eisi byr eilor os thol. Taji mesi sor aelael tysti sai tia shyraes’m aes.
(Não tome isto como uma gentileza, Nihallinael. Nossas raças não são aliadas ou amigas... apenas certifique-se de que esse evento chegará aos ouvidos de meu irmão.)

--- Pai byr shysia, Elandil. Ai shor taji mesi Varnilael cyrn os colaer... Sal o baesia tes.
(Não se preocupe, Elandil. Farei com que Varnilael saiba de sua bondade... muito obrigado.)

--- Byrn kai ! Ai’jh cali mysti kes aerys o sai si shysaes.
(Agora vá ! Alguns guardas vão te acompanhar até a fronteira.)

Nihallinael fez uma reverência ao rei e se retirou, dizendo:

--- Tae si mas ailestolari os maer !
(Que as estrelas iluminem seus passos !)

--- Tae si mel kedi os... --- respondeu, virando-se de costas.
(Que o sol guie os seus…)

Observava um grande vitral magicamente esculpido na parede de madeira do palácio sob as árvores. A imagem no vidro mostrava uma árvore com uma copa rica de folhas, a mesma imagem estampada em sua armadura, o brasão de sua raça, os Ellärin, também conhecido pelos povos comuns como elfos-das-árvores. Ao lado dela, havia também outros quatro brasões...

Uma árvore totalmente sem folhas, exibindo apenas os galhos secos. Eram os Fäerin, os elfos de cabelos brancos...

Uma lua, em sua fase crescente. Eram os Lómërin, os elfos-da-noite, raça de Nihallinael.

Uma árvore de ponta cabeça, lançando suas raízes vermelhas acima do solo. Eram os Käerin, os elfos de cabelos vermelhos...

E, por último, uma gota d’água azulada. Eram os Ethelärin, elfos que vivam próximos aos rios e mares.

Cinco raças... e uma guerra aparentemente interminável. Alianças eram tramadas e logo desmanchadas após cada batalha ganha ou perdida. Elandil questionava-se sobre o real motivo dos confrontos...

Mas... o mais importante era que com ou sem a guerra interna... todos eram um... todos eram elfos !