Tudo estava pronto. O cenário já estava a posto, os atores se preparavam e as cortinas logo abririam-se. O espetáculo estava prestes a começar.
Os deuses se distanciaram, deleitando-se de orgulho e satisfação. Observaram a obra-prima pelo tempo suficiente de um suspiro. Não podiam esperar mais. A ansiedade, resquício mortal, tomava conta dos presentes, agitados por assistir a obra tomar seu próprio rumo. Todos consentiram e, com um estalar de dedos, Omnitheron fez com que a entropia caminhasse no sentido esperado.
A partir disso, a própria Criação, como havia feito com a escuridão após o nascimento das estrelas, tratou de ordenar o que restava. De sonhos, estabeleceu o Éter, o reino planar das idéias e pensamentos que une todas as criaturas. Do comportamento caótico dos átomos, oficializou a gravidade, o empuxo e todas as outras leis naturais. Da energia vital de todos os seres vivos, formou-se o plano elemental do Fogo. Das profundezas do planeta, o plano do elemento Terra, da fluidez e mutabilidade de Quen’are, deu forma ao plano da Água. Do bater de asas dos dragões, o reino do Ar, da energia emanada por todas as estrelas, o plano da Luz e de uma frase de Nerul que ainda pairava na imensidão, a morada das Sombras.
Porém ainda havia uma peça faltando em tudo aquilo. O fio fundamental que interligaria a Existência como um todo. A capacidade de manipular a Criação. A centelha de poder divino capaz de torcer e moldar tudo ante a vontade.
Magia.
Não havia, entretanto, nenhum deus com tamanho poder capaz de fornecer a dádiva da magia à Criação inteira. Portanto, depararam-se com o paradoxo. Não é possível o surgimento da arte arcana sem um ser que assumisse como Patrono da Magia. Todavia, era inconcebível a idéia de um Deus da Magia sem a existência da mesma no plano.
A idéia da necessidade de um Patrono permaneceu no Éter por um longo tempo. O suficiente para que, como um recém-nascido, engatinhasse até adquirir firmeza nas pernas. Andou, até aprender a correr. Correu até conseguir saltar. E voou quando saltar já não era o bastante. Adquiriu asas e fugiu do plano etéreo, forçando sua passagem para o plano material. Ao fazê-lo, formou o Primeiro Portão, a barreira que separa a realidade dos sonhos... Eä do Éter.
A idéia, já portadora de um poder digno de uma divindade, rumou para onde os outros Deuses estavam. Curiosos, todos analisavam-na, enquanto uma frase permeava as gargantas presentes... “O que é você?”
“Sou cria do pensamento, dos sonhos e da imaginação. Sou Aquele-que-a-tudo-pode, sou aquela que molda o mundo sob a minha vontade. Sou a pedra angular, o fio essencial, aquilo que falta para completar a vossa obra”, a voz era projetada na mente dos outros deuses. Era serena como a mais calma das manhãs de primavera, mas cheia de fúria como as nevascas de inverno.
“Eu sou a magia e a ela eu pertenço. Sou a Divindade da Magia e ponho-me à vontade da Criação e de seus habitantes”. A entidade, antes uma pequena esfera desfocada e tremulante, tomou a forma de um humanóide. Emanava idéias e pensamentos em forma de luz azulada. A figura deu as costas aos outros Deuses, encarando o Plano de Eä. Postou um dos joelhos no chão e abaixou a cabeça, em respeito à Criação que dera vida a ela. Segundos depois, se despedindo dos outros deuses, desvaneceu-se com uma leve brisa que passava.
Com a mesma rapidez que sumira, passeou por todos os cantos da Criação. Das leis naturais, dobrou-as criando suas opostas. Dos reinos elementais, moldou os Portões que restavam. E, de sua própria energia, explodiu em chamas que cairam por toda a Criação.
Todos os seres vivos sentiram algo completar-lhes o peito. Sentiram a centelha arder em seus corações e, por um momento, acharam-se capazes de proezas inimagináveis. Apenas um nome permeou a mente de todos. Um nome de impossível pronúncia ou escrita, que as mentes traduziram da melhor forma possível em dois ideogramas e um som.
“જાદુ”
Com o som, descobriram o modo de chamá-lo. Ishgar.
Com os ideogramas, vieram pensamentos e destes sensações. Ao mentalizarem “જા” os habitantes de Eä sentiram Poder, em sua forma mais essencial e não lapidada, como um diamante bruto em meio ao carvão. “દુ” era um pensamento que dizia a respeito de si mesmo, o complexo conceito do Pensar. Pela simples associação, os seres de Eä conheciam o poder do pensamento... a magia.
As peças estavam completas, o quebra-cabeça montado, o menestrel do Tempo já iniciara a música e o espetáculo podia finalmente começar...
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sexta-feira, 22 de julho de 2011
A Vida, A Morte e Eä
O mundo estava quase pronto, existiam montanhas, lagos, rios, mas nenhuma vida o habitava. Ehlonna impacientemente queria transformar seus sonhos em realidade, as árvores, os animais, a beleza das flores, a incontável diversidade que habitava seu coração. Mas ela não conseguia trazer à vida todas essas coisas, e então se recolhera a um pequeno plano que criara para si.
-- Por que não consigo? Por que não posso trazer os meus filhos para o mundo? O que impede a minha força criadora de agir?
A bela elfa com lágrimas nos olhos se sentou em um canto qualquer, abraçando seus joelhos delicados. Então de seu lamento veio o conhecimento. Nesse lugar cada deus só poderia ter uma atribuição, o deus do tempo já mencionara antes.
‘-- Que mau humor senhor dos mortos que andam. Ou deveria chamá-lo apenas de senhor dos mortos?’
Ele sabia que Nerul era muito mais do que o deus dos mortos, existiam muitos subtítulos para todos os deuses que vieram a essa Criação, mas a muito tempo que Nerul não falava em nada mais do que a morte, e Pelor só de seus belos sóis, e ela mesma só da natureza. Agora Ehlona entendia, ela era a deusa da natureza, nada mais, nada menos, não poderia dar vida, apenas cuidar dela depois que se tornasse realidade.
Todos os deuses haviam tomado uma parte de sua personalidade e transformado-a na sua única grandiosa capacidade, e para tal sacrificaram todo o resto.
-- Vejo que choras, minha doce flor! – O sorriso não deixou os lábios de Omnitheron, ultimamente era a única expressão a ser vista. – Claro, claro! Você chora, pois não tem filhas e filhos para cuidar, você deve estar com a “síndrome do ninho abandonado”. – uma leve pausa – Vamos, não me olhe com esse olhar raivoso, ó grande mãe da natureza. Tenho a solução para suas aflições. – Uma linda mulher entrou no cômodo, a primeira vista tinha uma estufada barriga, algo que muitos julgariam ser gordura excessiva. Mas após olhar suas coxas, seus antebraços e seu tronco veriam claramente que ela estava grávida.
-- Não traga suas concubinas para o meu plano. – um olhar praticamente perfura a testa de Omnitheron, que sorriu com a resposta dada pela mulher que acabara de entrar.
-- Se sou concubina de alguém, sou sua. – o olhar calmo e pacífico de Livynien a deixava mais linda, uma mãe prestes a dar a luz possui muitos encantos.
-- Não sejas tola! Nunca te vi! – a expressão de desprezo dominou a face da deusa – E mesmo se a conhecesse não chegaria perto de você.
-- Calma minha cara. – O deus se divertia, mas segurava o riso debochado aprisionado dentro de seu cérebro. – Você realmente a engravidou, mas não foi da maneira convencional. – A pausa dramática rendeu frutos, Ehlonna se mostrou completamente perdida e paralisada pela descoberta.—As suas idéias a tornaram mãe e tais idéias vão florescer hoje.
-- COMO? NÃO SEI DO QUE ESTÁ FALANDO! DE ONDE TIROU TAMANHA ASNEIRA? DE ONDE VEM A SUA LOUCURA?—o Deus do Tempo não se segurou mais e começou a rir desesperadamente.
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
Caio ao chão se contorcendo em sua felicidade. Só após um tempo se recompôs, levantou e voltou a conversar.
-- Essa é Livynien, a nossa Deusa da Vida, só ela pode dar vida a nossas idéias. – o maroto sorriso avisava que ainda havia mais por vir.—Ela é a ÚNICA nesse lugar que pode dar vida, se acostume com a Idéia. É exatamente como você imagina, cada deus só pode ter uma atribuição, dessa forma, eu sou APENAS o deus do TEMPO, você APENAS a deusa da NATUREZA, assim como Pelor do SOL e Nerul da MORTE. – O deus falava com muita veemência deixando claro que já sabia disso antes de virem para essa dimensão, a diversão nunca acabava.
Ehlona ainda estava juntando os fragmentos em sua mente, ponderando a quanto tempo não pensava em mais nada além de suas plantas e animais.
-- Mas como poderíamos manipular o mundo? Eu não poderia apenas ‘subjugar’ a NATUREZA?
-- Cada coisa ao seu tempo, primeiramente temos que arranjar um bom lugar para um esplendoroso parto! Afinal, nada ganha vida sem um sacrifício de algo.
Os deuses se reuniram no plano da deusa da vida, o parto não foi o que os humanos ou seres vivos chamariam de “parto” e obviamente não poderia ser. Não nos convém descrevê-lo, mas no fim Eä floresceu em verde.
-- Veja mãe da Natureza! Os seus filhos ocuparam o mundo que todos se ocuparam em fazer! – Livynien sorriou junto com a outra deusa.
-- A felicidade é grande demais para ficar apenas para mim. – Ehlonna cantou. Cantou como milhares de animais que agora habitavam Eä, nenhum Deus jamais teve tantas vozes ao mesmo tempo, e a melodia tomou a Criação e muitos outros planetas também receberam os filhos de Ehlonna.
No fim da canção Livynien estava novamente grávida e todos os deuses mais uma vez comemoraram.
Cada um veio ao seu tempo, primeiro os Elfos acordaram sobre um cobertor de estrelas destinados a amar a noite. O deus que sonhara com a sua vinda muito ficou feliz, e comemorou o nascimento de seus filhos. Altos e esbeltos, de grande longevidade, demonstraram grande inteligência e capacidade de aprender, poucos foram, dos primeiros Elfos, que não fizeram grandes feitos, também demonstraram amor à natureza, quase tão grande quanto Ehlonna.
Os Anões nasceram sem ver o sol ou as estrelas, o seu criador era arrogante demais para deixar Pelor roubar seus filhos. Pernas fortes e resistentes, uma pele que em muitos parecia mais com uma couraça de pedra, apenas amaciada para permitir o amor entre os da mesma raça.
-- Eles viverão em cavernas, até que algo os chame para viver em outro lugar! Mas nunca viverão sobre o sol, não sem se sentirem incompletos. Um teto de pedra sempre lhes cobrirá a cabeça! -- Até nos dias de hoje é difícil achar um Anão que não viva com uma grande quantidade de pedra por sobre suas cabeças. Viveram centenas de anos antes de achar a saída para o mundo de céu, sol e estrelas, em seus escritos alguns dizem ter sido o fim dos tempos áureos da raça, o dia que o céu foi achado é conhecido entre muitos da raça como um dia de pesar.
Existia um deus que nunca se pronunciava. O olhar maldoso vigiava a obra dos outros, e às copiava, corrompendo-as. Poucas idéias esse deus tinha, e todas eram para destruir algo que fora construído por outros. A água virou gelo e lodo, o fogo lava destrutiva, as belas colinas em gigantescas montanhas instransponíveis, as árvores pacíficas de Ehlonna se tornaram carnívoras, e seus animais em monstros, assim como Elfos viraram Orcs e muitas outras aberrações nasceram da imaginação desse deus. Seu nome era Ith e a tudo ele profanou.
Porém como vida só poderia vir de Livynien, dela vieram os monstros e os seres para aterrorizar os filhos dos outros deuses. Depois a Deusa muito adoeceu.
-- Vemos que a Deusa da Vida está quase sem a própria vida! – Omnitheron se divertia com as ironias e inconveniências do próprio tempo. – Creio que Ith matará a nossa amada deusa antes mesmo de podermos terminar a nossa laboriosa obra!
-- Cale-se. – Ehlonna estava ao lado da deusa adoentada, que parecia estar realmente perdendo sua vida. Podiam ver seus ossos, faltava-lhe carne e a cor fugia-lhe. – Em vez de brincar, ajude-a.
-- Não minha amiga, deixe que fale, não existe mentiras nas palavras do tempo. – a própria voz da deusa era fraca. – Mas não vou deixar esse universo antes que os meus últimos filhos venham ao mundo.
Os humanos não estavam completamente prontos, a “gestação” da deusa demorara mais do que o de costume e a mãe dos homens sofria ao lado da deusa adoecida. Ninguém notou, no entanto os Deuses dos Anões, Elfos e Humanos também estavam doentes, em alguns pontos suas peles escureciam e grandes manchas negras surgiam.
Durante um bom tempo todos tiveram a certeza que a morte de Livynien era iminente, mas muitas coisas ainda viriam a ser geradas antes da deusa desistir de sua vida. Finalmente os humanos nasceram, a ambição e a criatividade se mostraram suas características mais fortes. Mesmo com seu pouco tempo de vida, todos sonhavam com a grandeza e auto-superação. Levantaram castelos, muralhas e muitas grandes edificações, criaram sistemas de governos, a filosofia, a sociologia e os estudos da natureza. O seu tempo era curto e todos queriam deixar uma marca, mesmo se depois fossem esquecidos.
Logo após nasceram os Dragões, seres de incomparável inteligência e poder, também possuidores de uma grande afeição por metais e pedras preciosas. Um deus de aparência real, adornado por jóias, portando uma bela espada em sua cintura, alto e forte, parecendo um humano com feições reptilianas, falou aos outros deuses de sua preocupação.
-- Meus caros, meus filhos inteligentes e poderosos não viverão muito bem com os seus frágeis e tolos.
-- Que isso não seja um problema, meu caro! – o Deus do Tempo se divertia com o orgulhoso deus. – Vamos fazer um lugar para prendê-los, até que os outros filhos possam enfrentá-los! E você então verá que humanos, elfos e anões não são tão fracos quanto você desejaria.
-- Não fale asneiras! – o Deus dos Dragões adorava uma aposta – Então veremos quem irá ser o dono desse planeta, os meus filhos ou os fracos e tolos que vocês criaram! –um deus se esgueirou para a conversa.
-- Vejo que o senhor do tempo quer uma aposta? Faremos todos então uma! – um sorriso estava camuflado nos lábios de Lucius, o Deus das Trocas. – O Deus que tiver o maior número de seguidores terá o direito de reformular o mundo, ao seu gosto, claro.
-- Vejo que nosso amigo de chapéu sempre está no lugar certo para fazer os seus acordos e trocas. – O estranho senso de humor de Omnitheron quase sumiu. – Não me importaria de fazer tal acordo, mas eu estou fadado a perder, afinal o tempo é amado só pelos velhos perto de sua morte.
-- Eu entrarei nessa aposta também. – o deus dos anões rapidamente interfere – meus filhos dominarão o mundo por suas entranhas de pedra e aço!
-- Não ficarei fora dessa. Os humanos não se curvarão para dragões ou anões, a sua incrível ambição os guiará mais longe do que o poder de seus filhos. – disse a deusa matriarca dos humanos
-- Não sejas tola, os elfos mostrarão a beleza de suas obras e a magnificência de suas escolhas perto da mortalidade de seus filhos. – o deus élfico rapidamente interveio.
-- Calma , calma. Meus companheiros deuses e deusas, todos podem entrar na aposta, afinal todos queremos o máximo de nossos filhos. – sorrindo e tocando a aba de seu chapéu o deus dos acordos fechou o acordo. – Pronto. Não importa quem vencer, ele vai receber o poder de mudar o mundo, e todos deverão ajudá-lo.
Uma grande ilha foi criada, e todos os dragões aprisionados dentro dela para que quando os outros filhos estivessem prontos, eles fossem liberados. A sua forma peculiar foi decidida pelo pai dos dragões que a queria como uma demonstração eterna de seu poder. Uma grande cabeça de dragão habitará para sempre o oceano.
Com o passar do tempo as manchas na pele dos deuses ficaram maiores, e todos se sentiam fracos. A praga pegara quase todos. Pelor, Nerull, Omnitheron, Ehlona, Morgoth, Quen’are e Lucius eram os únicos deuses que não adoeceram, a força não os abandonara, mas não podiam fazer nada pelos outros.
-- Livynien, o que posso fazer? – Ehlona ficava praticamente todo o seu tempo do lado da deusa da vida.
-- Sorria minha amiga, a vida sem um sorriso é fútil e inútil. – o sorriso fraco e sem brilho ainda habitava os lábios da fragilizada deusa.
-- Talvez alguma das minhas plantas poderia lhe ajudar! – o desespero pairava em seus olhos.
-- Não sejas tola, eu dei vida a elas. Não poderiam me salvar de mim mesma.
Um deus pode morrer, mas sua morte não é tão simples quanto a dos mortais. Tristemente os deuses são esquecidos, apagados das memórias de seus seguidores, que simplesmente irão acordar e nunca mais se lembrar de seus patronos tão amados, então sua fé os guia para algum outro lugar.
Muitos anões se perderam quando seu amado pai morreu, dezenas de paladinos e sacerdotes esqueceram quem foram, em uma bela manhã durante o ciclo do sol verde do mundo. A dimensão do deus sucumbiu, sua energia foi dispersa no espaço, nada sobrou para contar a sua história, ninguém mais sabe o seu nome, assim como não sabem os nomes de todos os outros deuses que adoeceram e morreram dessa mesma doença. No fim, todos voltaram ao pó.
-- Creio que mais um se foi. – nesses tempos difíceis até mesmo Omnitheron perdera seu humor. – Já não lembro o nome dele, uma pena. – os deuses esqueceram o nome dos seus companheiros assim como os seus fieis perderam a fé e a certeza que antes tinham.
-- Não fique com essa cara, sorria meu amigo. – Livynien ainda deitada em uma cama sobrevivia bravamente à doença.
-- Creio que até meu senso de humor se foi. Se perdeu junto com as minhas memórias. – um olhar triste dominava a expressão do deus que sentado ao lado da cama simplesmente deixava o tempo fluir.
-- Já lhe disse Omni, siga o seu caminho e saia desse quarto amaldiçoado. Não precisamos que mais um deus caia para essa estranha doença. – Livynien demonstrava um carinho de mãe em relação aos outros deuses, que se perdiam em desespero. O esquecimento era o maior medo de todos. Sua compaixão pelo deus era demonstrada por um leve cafuné em seus cabelos, que um dia já foram negros e agora eram quase brancos, um cinza triste e melancólico.
-- Fique feliz Livynien, a VIDA nunca morrerá. Ela existirá enquanto existir a morte, ela é interminável.
Todos os seres vivos da criação gostariam que o Deus do Tempo estivesse certo. Que a Deusa sobrevivesse, contudo até ele pode se enganar. Livynien morreu, mas seu corpo não virou cinzas de imediato, durante séculos a Vida se esvaiu de seu corpo imóvel, que perdia pedaços conforme, sem piedade, o tempo passava, dando chance de existir nova vida no mundo.
-- Por que não consigo? Por que não posso trazer os meus filhos para o mundo? O que impede a minha força criadora de agir?
A bela elfa com lágrimas nos olhos se sentou em um canto qualquer, abraçando seus joelhos delicados. Então de seu lamento veio o conhecimento. Nesse lugar cada deus só poderia ter uma atribuição, o deus do tempo já mencionara antes.
‘-- Que mau humor senhor dos mortos que andam. Ou deveria chamá-lo apenas de senhor dos mortos?’
Ele sabia que Nerul era muito mais do que o deus dos mortos, existiam muitos subtítulos para todos os deuses que vieram a essa Criação, mas a muito tempo que Nerul não falava em nada mais do que a morte, e Pelor só de seus belos sóis, e ela mesma só da natureza. Agora Ehlona entendia, ela era a deusa da natureza, nada mais, nada menos, não poderia dar vida, apenas cuidar dela depois que se tornasse realidade.
Todos os deuses haviam tomado uma parte de sua personalidade e transformado-a na sua única grandiosa capacidade, e para tal sacrificaram todo o resto.
-- Vejo que choras, minha doce flor! – O sorriso não deixou os lábios de Omnitheron, ultimamente era a única expressão a ser vista. – Claro, claro! Você chora, pois não tem filhas e filhos para cuidar, você deve estar com a “síndrome do ninho abandonado”. – uma leve pausa – Vamos, não me olhe com esse olhar raivoso, ó grande mãe da natureza. Tenho a solução para suas aflições. – Uma linda mulher entrou no cômodo, a primeira vista tinha uma estufada barriga, algo que muitos julgariam ser gordura excessiva. Mas após olhar suas coxas, seus antebraços e seu tronco veriam claramente que ela estava grávida.
-- Não traga suas concubinas para o meu plano. – um olhar praticamente perfura a testa de Omnitheron, que sorriu com a resposta dada pela mulher que acabara de entrar.
-- Se sou concubina de alguém, sou sua. – o olhar calmo e pacífico de Livynien a deixava mais linda, uma mãe prestes a dar a luz possui muitos encantos.
-- Não sejas tola! Nunca te vi! – a expressão de desprezo dominou a face da deusa – E mesmo se a conhecesse não chegaria perto de você.
-- Calma minha cara. – O deus se divertia, mas segurava o riso debochado aprisionado dentro de seu cérebro. – Você realmente a engravidou, mas não foi da maneira convencional. – A pausa dramática rendeu frutos, Ehlonna se mostrou completamente perdida e paralisada pela descoberta.—As suas idéias a tornaram mãe e tais idéias vão florescer hoje.
-- COMO? NÃO SEI DO QUE ESTÁ FALANDO! DE ONDE TIROU TAMANHA ASNEIRA? DE ONDE VEM A SUA LOUCURA?—o Deus do Tempo não se segurou mais e começou a rir desesperadamente.
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
Caio ao chão se contorcendo em sua felicidade. Só após um tempo se recompôs, levantou e voltou a conversar.
-- Essa é Livynien, a nossa Deusa da Vida, só ela pode dar vida a nossas idéias. – o maroto sorriso avisava que ainda havia mais por vir.—Ela é a ÚNICA nesse lugar que pode dar vida, se acostume com a Idéia. É exatamente como você imagina, cada deus só pode ter uma atribuição, dessa forma, eu sou APENAS o deus do TEMPO, você APENAS a deusa da NATUREZA, assim como Pelor do SOL e Nerul da MORTE. – O deus falava com muita veemência deixando claro que já sabia disso antes de virem para essa dimensão, a diversão nunca acabava.
Ehlona ainda estava juntando os fragmentos em sua mente, ponderando a quanto tempo não pensava em mais nada além de suas plantas e animais.
-- Mas como poderíamos manipular o mundo? Eu não poderia apenas ‘subjugar’ a NATUREZA?
-- Cada coisa ao seu tempo, primeiramente temos que arranjar um bom lugar para um esplendoroso parto! Afinal, nada ganha vida sem um sacrifício de algo.
Os deuses se reuniram no plano da deusa da vida, o parto não foi o que os humanos ou seres vivos chamariam de “parto” e obviamente não poderia ser. Não nos convém descrevê-lo, mas no fim Eä floresceu em verde.
-- Veja mãe da Natureza! Os seus filhos ocuparam o mundo que todos se ocuparam em fazer! – Livynien sorriou junto com a outra deusa.
-- A felicidade é grande demais para ficar apenas para mim. – Ehlonna cantou. Cantou como milhares de animais que agora habitavam Eä, nenhum Deus jamais teve tantas vozes ao mesmo tempo, e a melodia tomou a Criação e muitos outros planetas também receberam os filhos de Ehlonna.
No fim da canção Livynien estava novamente grávida e todos os deuses mais uma vez comemoraram.
Cada um veio ao seu tempo, primeiro os Elfos acordaram sobre um cobertor de estrelas destinados a amar a noite. O deus que sonhara com a sua vinda muito ficou feliz, e comemorou o nascimento de seus filhos. Altos e esbeltos, de grande longevidade, demonstraram grande inteligência e capacidade de aprender, poucos foram, dos primeiros Elfos, que não fizeram grandes feitos, também demonstraram amor à natureza, quase tão grande quanto Ehlonna.
Os Anões nasceram sem ver o sol ou as estrelas, o seu criador era arrogante demais para deixar Pelor roubar seus filhos. Pernas fortes e resistentes, uma pele que em muitos parecia mais com uma couraça de pedra, apenas amaciada para permitir o amor entre os da mesma raça.
-- Eles viverão em cavernas, até que algo os chame para viver em outro lugar! Mas nunca viverão sobre o sol, não sem se sentirem incompletos. Um teto de pedra sempre lhes cobrirá a cabeça! -- Até nos dias de hoje é difícil achar um Anão que não viva com uma grande quantidade de pedra por sobre suas cabeças. Viveram centenas de anos antes de achar a saída para o mundo de céu, sol e estrelas, em seus escritos alguns dizem ter sido o fim dos tempos áureos da raça, o dia que o céu foi achado é conhecido entre muitos da raça como um dia de pesar.
Existia um deus que nunca se pronunciava. O olhar maldoso vigiava a obra dos outros, e às copiava, corrompendo-as. Poucas idéias esse deus tinha, e todas eram para destruir algo que fora construído por outros. A água virou gelo e lodo, o fogo lava destrutiva, as belas colinas em gigantescas montanhas instransponíveis, as árvores pacíficas de Ehlonna se tornaram carnívoras, e seus animais em monstros, assim como Elfos viraram Orcs e muitas outras aberrações nasceram da imaginação desse deus. Seu nome era Ith e a tudo ele profanou.
Porém como vida só poderia vir de Livynien, dela vieram os monstros e os seres para aterrorizar os filhos dos outros deuses. Depois a Deusa muito adoeceu.
-- Vemos que a Deusa da Vida está quase sem a própria vida! – Omnitheron se divertia com as ironias e inconveniências do próprio tempo. – Creio que Ith matará a nossa amada deusa antes mesmo de podermos terminar a nossa laboriosa obra!
-- Cale-se. – Ehlonna estava ao lado da deusa adoentada, que parecia estar realmente perdendo sua vida. Podiam ver seus ossos, faltava-lhe carne e a cor fugia-lhe. – Em vez de brincar, ajude-a.
-- Não minha amiga, deixe que fale, não existe mentiras nas palavras do tempo. – a própria voz da deusa era fraca. – Mas não vou deixar esse universo antes que os meus últimos filhos venham ao mundo.
Os humanos não estavam completamente prontos, a “gestação” da deusa demorara mais do que o de costume e a mãe dos homens sofria ao lado da deusa adoecida. Ninguém notou, no entanto os Deuses dos Anões, Elfos e Humanos também estavam doentes, em alguns pontos suas peles escureciam e grandes manchas negras surgiam.
Durante um bom tempo todos tiveram a certeza que a morte de Livynien era iminente, mas muitas coisas ainda viriam a ser geradas antes da deusa desistir de sua vida. Finalmente os humanos nasceram, a ambição e a criatividade se mostraram suas características mais fortes. Mesmo com seu pouco tempo de vida, todos sonhavam com a grandeza e auto-superação. Levantaram castelos, muralhas e muitas grandes edificações, criaram sistemas de governos, a filosofia, a sociologia e os estudos da natureza. O seu tempo era curto e todos queriam deixar uma marca, mesmo se depois fossem esquecidos.
Logo após nasceram os Dragões, seres de incomparável inteligência e poder, também possuidores de uma grande afeição por metais e pedras preciosas. Um deus de aparência real, adornado por jóias, portando uma bela espada em sua cintura, alto e forte, parecendo um humano com feições reptilianas, falou aos outros deuses de sua preocupação.
-- Meus caros, meus filhos inteligentes e poderosos não viverão muito bem com os seus frágeis e tolos.
-- Que isso não seja um problema, meu caro! – o Deus do Tempo se divertia com o orgulhoso deus. – Vamos fazer um lugar para prendê-los, até que os outros filhos possam enfrentá-los! E você então verá que humanos, elfos e anões não são tão fracos quanto você desejaria.
-- Não fale asneiras! – o Deus dos Dragões adorava uma aposta – Então veremos quem irá ser o dono desse planeta, os meus filhos ou os fracos e tolos que vocês criaram! –um deus se esgueirou para a conversa.
-- Vejo que o senhor do tempo quer uma aposta? Faremos todos então uma! – um sorriso estava camuflado nos lábios de Lucius, o Deus das Trocas. – O Deus que tiver o maior número de seguidores terá o direito de reformular o mundo, ao seu gosto, claro.
-- Vejo que nosso amigo de chapéu sempre está no lugar certo para fazer os seus acordos e trocas. – O estranho senso de humor de Omnitheron quase sumiu. – Não me importaria de fazer tal acordo, mas eu estou fadado a perder, afinal o tempo é amado só pelos velhos perto de sua morte.
-- Eu entrarei nessa aposta também. – o deus dos anões rapidamente interfere – meus filhos dominarão o mundo por suas entranhas de pedra e aço!
-- Não ficarei fora dessa. Os humanos não se curvarão para dragões ou anões, a sua incrível ambição os guiará mais longe do que o poder de seus filhos. – disse a deusa matriarca dos humanos
-- Não sejas tola, os elfos mostrarão a beleza de suas obras e a magnificência de suas escolhas perto da mortalidade de seus filhos. – o deus élfico rapidamente interveio.
-- Calma , calma. Meus companheiros deuses e deusas, todos podem entrar na aposta, afinal todos queremos o máximo de nossos filhos. – sorrindo e tocando a aba de seu chapéu o deus dos acordos fechou o acordo. – Pronto. Não importa quem vencer, ele vai receber o poder de mudar o mundo, e todos deverão ajudá-lo.
Uma grande ilha foi criada, e todos os dragões aprisionados dentro dela para que quando os outros filhos estivessem prontos, eles fossem liberados. A sua forma peculiar foi decidida pelo pai dos dragões que a queria como uma demonstração eterna de seu poder. Uma grande cabeça de dragão habitará para sempre o oceano.
Com o passar do tempo as manchas na pele dos deuses ficaram maiores, e todos se sentiam fracos. A praga pegara quase todos. Pelor, Nerull, Omnitheron, Ehlona, Morgoth, Quen’are e Lucius eram os únicos deuses que não adoeceram, a força não os abandonara, mas não podiam fazer nada pelos outros.
-- Livynien, o que posso fazer? – Ehlona ficava praticamente todo o seu tempo do lado da deusa da vida.
-- Sorria minha amiga, a vida sem um sorriso é fútil e inútil. – o sorriso fraco e sem brilho ainda habitava os lábios da fragilizada deusa.
-- Talvez alguma das minhas plantas poderia lhe ajudar! – o desespero pairava em seus olhos.
-- Não sejas tola, eu dei vida a elas. Não poderiam me salvar de mim mesma.
Um deus pode morrer, mas sua morte não é tão simples quanto a dos mortais. Tristemente os deuses são esquecidos, apagados das memórias de seus seguidores, que simplesmente irão acordar e nunca mais se lembrar de seus patronos tão amados, então sua fé os guia para algum outro lugar.
Muitos anões se perderam quando seu amado pai morreu, dezenas de paladinos e sacerdotes esqueceram quem foram, em uma bela manhã durante o ciclo do sol verde do mundo. A dimensão do deus sucumbiu, sua energia foi dispersa no espaço, nada sobrou para contar a sua história, ninguém mais sabe o seu nome, assim como não sabem os nomes de todos os outros deuses que adoeceram e morreram dessa mesma doença. No fim, todos voltaram ao pó.
-- Creio que mais um se foi. – nesses tempos difíceis até mesmo Omnitheron perdera seu humor. – Já não lembro o nome dele, uma pena. – os deuses esqueceram o nome dos seus companheiros assim como os seus fieis perderam a fé e a certeza que antes tinham.
-- Não fique com essa cara, sorria meu amigo. – Livynien ainda deitada em uma cama sobrevivia bravamente à doença.
-- Creio que até meu senso de humor se foi. Se perdeu junto com as minhas memórias. – um olhar triste dominava a expressão do deus que sentado ao lado da cama simplesmente deixava o tempo fluir.
-- Já lhe disse Omni, siga o seu caminho e saia desse quarto amaldiçoado. Não precisamos que mais um deus caia para essa estranha doença. – Livynien demonstrava um carinho de mãe em relação aos outros deuses, que se perdiam em desespero. O esquecimento era o maior medo de todos. Sua compaixão pelo deus era demonstrada por um leve cafuné em seus cabelos, que um dia já foram negros e agora eram quase brancos, um cinza triste e melancólico.
-- Fique feliz Livynien, a VIDA nunca morrerá. Ela existirá enquanto existir a morte, ela é interminável.
Todos os seres vivos da criação gostariam que o Deus do Tempo estivesse certo. Que a Deusa sobrevivesse, contudo até ele pode se enganar. Livynien morreu, mas seu corpo não virou cinzas de imediato, durante séculos a Vida se esvaiu de seu corpo imóvel, que perdia pedaços conforme, sem piedade, o tempo passava, dando chance de existir nova vida no mundo.
domingo, 17 de julho de 2011
O Planeta e Os Sóis
Muito, ou pouco, tempo depois, depende de onde você estava no universo, um grupo de Deuses abandonou uma dimensão e se dirigiu a uma nova. Entre eles estava o Deus do Tempo, o Da Morte, o Do Sol e a Deusa da Natureza, poucos se juntaram a eles, mas todos iriam mudar ao assumir o controle da nova Criação vazia.
-- O dia está lindo, não acha? – um sorriso maroto brotou nos lábios do Deus do Tempo.—Só o sol que está meio forte, parece irritado! – olhou para Pelor com um sorriso ainda mais provocativo.—Vejo que todos compartilham esse seu temor, minha cara.—a Deusa continuo a ignorar o Deus do Tempo que se usava dela para incomodar os outros. Desistindo de importunar a deusa, olha em outra direção.– E você meu caro? O que lhe trouxe a nossa peculiar comitiva? – um Deus que se vestia de azul rapidamente se virou para o interlocutor.
-- Um universo sem água está morto. – o olhar sério dos olhos azuis chega a dar calafrios pra quem não esta acostumado.
-- Claro! Todos os que vieram vão ter uma grande obra a frente!
O grupo de deuses não se sentia a vontade do lado do Deus do Tempo, estavam prestes a entrar em uma nova criação e o deus só sabia fazer piadas e comentários bobos, o grupo se ressentia de não conseguir fazê-lo calar a boca.
-- Como estava dizendo a pouco tempo (ou seria muito ?), creio que devemos começar criando um mundo, o resto da Criação pode esperar. – o sorriso era radiante, comparável ao deus Sol – Vamos senhores! É logo ali a entrada do nosso novo reino!
Até o momento todos “andavam” por um espaço que poderia ser considerado vazio, pois não existia nada que lhes dessem noções de profundidade, distância ou tempo. Mas o breu infinito que incomodava os deuses menores, não acostumados com tais lugares, acabou, e uma forte luz multicolorida surgiu nos olhos de todos.
Após meros milésimos de segundos todos perceberam que a luz não era de tom ou forma fixa, e alterava-se milhões de vezes em poucos instantes. Todas as misturas imagináveis de cores e tons estavam naquele estranho círculo disforme que flutuava no meio do nada, e alguns deuses perceberam que se recuassem a cabeça apenas alguns milímetros não mais a veriam.
--Maravilhoso! – O deus do tempo se divertia ao observar a coisa mutante e intermitente. – Agora por favor se dirijam a ela.
Sem maiores explicações o deus estica o braço na direção de onde vinha a luz e desapareceu, após parecer ter dobrado e espiralado. Alguns dos outros recuaram o suficiente para perder de vista a peculiar luminescência que ficara após a passagem de Omnitheron, tentando se acalmar. Estranhamente se ouvia o batimento cardíaco de muitos dos deuses, uma reminiscência de sua vida mortal.
--Pffff... pobre crianças. – Nerull esticou seu braço e desaparecou do mesmo jeito que Omnitheron. O deus vestido de azul, conhecido por Quen’are, é o próximo a fazer a viagem para a nova criação, ele não espiralou como os dois últimos, mas fluiu como líquido para dentro do círculo de luz.
-- Espero vocês do outro lado. – A voz grossa do deus que saltava por sobre a luz ecoou pelo breu.
Um a um, os deuses menores criam coragem para passar pela luz que os guiaria para um lugar que nunca haviam visto antes.
Seria quase impossível explicar a complexidade dos sentimentos que todos os deuses tiveram ao mudar para a nova Criação, mas tudo pode ser resumido em uma imagem que surgiu em suas mentes, uma enorme, infinita, sala branca, sem sombras, cantos, luzes. Os deuses despreparados quase enlouqueceram no silêncio absoluto, a falta de ar e de qualquer tipo de informação, alem do branco que dominava as suas mentes. Mas ao mesmo tempo, o poder fluía por seus corpos e se sentiram capazes de fazer qualquer coisa.
A imensidão branca era convidativa, acolhedora, ao mesmo tempo que os tornava insanos. O primeiro deus a tomar alguma atitude foi o deus do tempo, estabelecendo a entidade que lhe faz juz ao nome, e os deuses se sentiram mais confortáveis, Pelor não quis perder e rapidamente criou dezenas de milhares de estrelas que permearam todo o espaço branco, uma tarefa que nenhum deus deveria ser capaz de realizar. Segundo depois a escuridão surgiu, todos os deuses se entreolharam, ninguém havia se movido, só o próprio Pelor foi rápido o suficiente para entender que, não teria como existir um conceito como a Luz se não houvesse a Sombra e a Escuridão para contrapô-la.
-- Creio que todos sabem o que está nos faltando. – a voz marota ecoou pelo ambiente, a primeira voz a ser pronunciada, a voz do próprio Tempo, todos os deuses sentiram o poder dele os envolver. – Agora meus amigos, vamos fazer um Mundo, um lugar para todos nós brincarmos e reinarmos.
Não se sabe ao certo quanto tempo se passou, mas os deuses juntos criaram todos os elementos que seriam usados para produzir toda e qualquer coisa na Criação, usaram como base o elemento que Pelor criara para produzir luz, assim aquele passou a ser o mais básico daquele lugar.
Podemos ver essa Criação como uma grande nebulosa de elementos. Dela os deuses moldaram planetas, constelações e o universo, melhorando a obra de Pelor e transformando o céu em um mar de estrelas. Conforme tudo isso era criado, um lugar em específico nesse universo gigantesco chamou a atenção de todos. Dois sóis brigavam por um planeta.
O arranjo único, não proposital e extremamente lindo chamou a atenção dos deuses. Um grande sol, amarelo, e um outro relativamente menor, verde, brigavam pela posse de um planeta diminuto, que durante um tempo girava em torno de um e depois em torno do outro. Além disso, junto ao pequenino, estavam três satélites, dois sóis menores que ele, um que emanava tons de azul petróleo e vinho respectivamente,e uma esfera que refletia a cor das duas esferas irmãs, como dos dois externos.
Uma estranha energia emanava do sistema solar.
-- Ummmm – o deus do tempo havia rapidamente feito o tempo correr “normalmente” – Creio que temos algo interessante aqui.
-- Realmente uma linda constelação! Quatro Sóis! Ninguém irá conseguir ignorar o Deus Sol! – Pelor olhava com admiração os estranhos sóis de cores diversas.
-- Meu caro, por mais lindos que eles sejam, veja como ambos disputam o controle do planeta. – quinhentos anos se passaram em um piscar de olhos, e o planeta deixou a órbita do sol verde e passou para a do sol vermelho, após dois mil anos voltou para a outra orbita. -- Uma linda dicotomia!
-- Pare de falar besteiras. Só existe um deus sol.
Os outros deuses presentes, assim como Omnitheron, prestavam atenção a estranha energia que surgira e não era de nenhum deles. Mas algo os atraia para o planeta, e ao mesmo tempo todos tomaram a mesma decisão.
-- Aqui vai ser a casa dos Humanos!
-- Aqui vai ser a casa dos Elfos!
-- Aqui vai ser a casa dos Anões!
-- Aqui vai ser a morada da Natureza!
Estranhamente nenhum outro deus se opôs, ninguém questionou, e o trabalho árduo começou. O tempo começou a correr de uma forma compassada, ora rápido ora devagar, deixando os deuses trabalharem de forma agradável.
-- O dia está lindo, não acha? – um sorriso maroto brotou nos lábios do Deus do Tempo.—Só o sol que está meio forte, parece irritado! – olhou para Pelor com um sorriso ainda mais provocativo.—Vejo que todos compartilham esse seu temor, minha cara.—a Deusa continuo a ignorar o Deus do Tempo que se usava dela para incomodar os outros. Desistindo de importunar a deusa, olha em outra direção.– E você meu caro? O que lhe trouxe a nossa peculiar comitiva? – um Deus que se vestia de azul rapidamente se virou para o interlocutor.
-- Um universo sem água está morto. – o olhar sério dos olhos azuis chega a dar calafrios pra quem não esta acostumado.
-- Claro! Todos os que vieram vão ter uma grande obra a frente!
O grupo de deuses não se sentia a vontade do lado do Deus do Tempo, estavam prestes a entrar em uma nova criação e o deus só sabia fazer piadas e comentários bobos, o grupo se ressentia de não conseguir fazê-lo calar a boca.
-- Como estava dizendo a pouco tempo (ou seria muito ?), creio que devemos começar criando um mundo, o resto da Criação pode esperar. – o sorriso era radiante, comparável ao deus Sol – Vamos senhores! É logo ali a entrada do nosso novo reino!
Até o momento todos “andavam” por um espaço que poderia ser considerado vazio, pois não existia nada que lhes dessem noções de profundidade, distância ou tempo. Mas o breu infinito que incomodava os deuses menores, não acostumados com tais lugares, acabou, e uma forte luz multicolorida surgiu nos olhos de todos.
Após meros milésimos de segundos todos perceberam que a luz não era de tom ou forma fixa, e alterava-se milhões de vezes em poucos instantes. Todas as misturas imagináveis de cores e tons estavam naquele estranho círculo disforme que flutuava no meio do nada, e alguns deuses perceberam que se recuassem a cabeça apenas alguns milímetros não mais a veriam.
--Maravilhoso! – O deus do tempo se divertia ao observar a coisa mutante e intermitente. – Agora por favor se dirijam a ela.
Sem maiores explicações o deus estica o braço na direção de onde vinha a luz e desapareceu, após parecer ter dobrado e espiralado. Alguns dos outros recuaram o suficiente para perder de vista a peculiar luminescência que ficara após a passagem de Omnitheron, tentando se acalmar. Estranhamente se ouvia o batimento cardíaco de muitos dos deuses, uma reminiscência de sua vida mortal.
--Pffff... pobre crianças. – Nerull esticou seu braço e desaparecou do mesmo jeito que Omnitheron. O deus vestido de azul, conhecido por Quen’are, é o próximo a fazer a viagem para a nova criação, ele não espiralou como os dois últimos, mas fluiu como líquido para dentro do círculo de luz.
-- Espero vocês do outro lado. – A voz grossa do deus que saltava por sobre a luz ecoou pelo breu.
Um a um, os deuses menores criam coragem para passar pela luz que os guiaria para um lugar que nunca haviam visto antes.
Seria quase impossível explicar a complexidade dos sentimentos que todos os deuses tiveram ao mudar para a nova Criação, mas tudo pode ser resumido em uma imagem que surgiu em suas mentes, uma enorme, infinita, sala branca, sem sombras, cantos, luzes. Os deuses despreparados quase enlouqueceram no silêncio absoluto, a falta de ar e de qualquer tipo de informação, alem do branco que dominava as suas mentes. Mas ao mesmo tempo, o poder fluía por seus corpos e se sentiram capazes de fazer qualquer coisa.
A imensidão branca era convidativa, acolhedora, ao mesmo tempo que os tornava insanos. O primeiro deus a tomar alguma atitude foi o deus do tempo, estabelecendo a entidade que lhe faz juz ao nome, e os deuses se sentiram mais confortáveis, Pelor não quis perder e rapidamente criou dezenas de milhares de estrelas que permearam todo o espaço branco, uma tarefa que nenhum deus deveria ser capaz de realizar. Segundo depois a escuridão surgiu, todos os deuses se entreolharam, ninguém havia se movido, só o próprio Pelor foi rápido o suficiente para entender que, não teria como existir um conceito como a Luz se não houvesse a Sombra e a Escuridão para contrapô-la.
-- Creio que todos sabem o que está nos faltando. – a voz marota ecoou pelo ambiente, a primeira voz a ser pronunciada, a voz do próprio Tempo, todos os deuses sentiram o poder dele os envolver. – Agora meus amigos, vamos fazer um Mundo, um lugar para todos nós brincarmos e reinarmos.
Não se sabe ao certo quanto tempo se passou, mas os deuses juntos criaram todos os elementos que seriam usados para produzir toda e qualquer coisa na Criação, usaram como base o elemento que Pelor criara para produzir luz, assim aquele passou a ser o mais básico daquele lugar.
Podemos ver essa Criação como uma grande nebulosa de elementos. Dela os deuses moldaram planetas, constelações e o universo, melhorando a obra de Pelor e transformando o céu em um mar de estrelas. Conforme tudo isso era criado, um lugar em específico nesse universo gigantesco chamou a atenção de todos. Dois sóis brigavam por um planeta.
O arranjo único, não proposital e extremamente lindo chamou a atenção dos deuses. Um grande sol, amarelo, e um outro relativamente menor, verde, brigavam pela posse de um planeta diminuto, que durante um tempo girava em torno de um e depois em torno do outro. Além disso, junto ao pequenino, estavam três satélites, dois sóis menores que ele, um que emanava tons de azul petróleo e vinho respectivamente,e uma esfera que refletia a cor das duas esferas irmãs, como dos dois externos.
Uma estranha energia emanava do sistema solar.
-- Ummmm – o deus do tempo havia rapidamente feito o tempo correr “normalmente” – Creio que temos algo interessante aqui.
-- Realmente uma linda constelação! Quatro Sóis! Ninguém irá conseguir ignorar o Deus Sol! – Pelor olhava com admiração os estranhos sóis de cores diversas.
-- Meu caro, por mais lindos que eles sejam, veja como ambos disputam o controle do planeta. – quinhentos anos se passaram em um piscar de olhos, e o planeta deixou a órbita do sol verde e passou para a do sol vermelho, após dois mil anos voltou para a outra orbita. -- Uma linda dicotomia!
-- Pare de falar besteiras. Só existe um deus sol.
Os outros deuses presentes, assim como Omnitheron, prestavam atenção a estranha energia que surgira e não era de nenhum deles. Mas algo os atraia para o planeta, e ao mesmo tempo todos tomaram a mesma decisão.
-- Aqui vai ser a casa dos Humanos!
-- Aqui vai ser a casa dos Elfos!
-- Aqui vai ser a casa dos Anões!
-- Aqui vai ser a morada da Natureza!
Estranhamente nenhum outro deus se opôs, ninguém questionou, e o trabalho árduo começou. O tempo começou a correr de uma forma compassada, ora rápido ora devagar, deixando os deuses trabalharem de forma agradável.
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